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A Geração Z mudou de opinião ou o RH leu o dado errado?

Uma pesquisa nova derrubou o estereótipo da Geração Z. Cruzando com 22 mil laudos comportamentais, aparece um problema maior: o RH vem confundindo preferência com personalidade.
Prof. Me. Roberto Sachs
Por Prof. Me. Roberto Sachs
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A Geração Z mudou de opinião ou o RH leu o dado errado? - Rock Ensina - Desenvolvimento Humano

O Estadão publicou em setembro de 2026 uma série sobre a Geração Z brasileira no trabalho, construída a partir de uma pesquisa feita com o Instituto Ipsos. O título do vídeo de abertura resume o achado: a Geração Z não é mais o patinho feio do trabalho.

É uma boa reportagem e um bom serviço. Ela desmonta com dado aquilo que virava piada de LinkedIn. Mas há um segundo achado dentro dos próprios resultados divulgados que passou quase batido, e ele é mais incômodo que o primeiro. Vamos chegar nele.

Antes, o que foi publicado.

O que a pesquisa encontrou

Ouvindo jovens de 16 a 29 anos, a pesquisa Ipsos e Estadão encontrou uma geração dividida quanto ao vínculo de trabalho. O trabalho autônomo aparece como a modalidade mais interessante para uma parcela maior do que a que prefere a carteira assinada, mas o maior contingente de todos é o dos que consideram os dois modelos igualmente vantajosos.

Não há rejeição em bloco à CLT. Há divisão, e o grupo mais numeroso é justamente o dos indiferentes. A geração que supostamente recusaria o emprego formal está, em sua maior parte, aberta aos dois caminhos.

O segundo achado é ainda mais direto contra o estereótipo. Segundo a reportagem, a remuneração foi o fator mais citado para sair ou permanecer em um emprego. A geração que, segundo a lenda, só quer propósito e flexibilidade, respondeu que quer ser bem paga.

A diretora de opinião pública do Ipsos e líder do levantamento, Patrícia Pavanelli, avaliou ao jornal que a flexibilidade é valorizada, mas não compensa a remuneração nem substitui a necessidade de renda adequada.

Até aqui, a reportagem faz o trabalho de corrigir uma caricatura. O ponto que queremos acrescentar começa no recorte seguinte.

O dado que passou batido

A mesma pesquisa abriu os resultados por classe social. E aí o retrato se parte. A preferência pela carteira assinada é bem maior nas classes D e E do que nas classes A e B, com uma distância de mais de dez pontos percentuais entre os dois extremos da pirâmide.

Todas essas pessoas são Geração Z. Todas nasceram na mesma janela, cresceram com o mesmo celular na mão, assistiram aos mesmos vídeos. E respondem de forma bem diferente.

A reportagem não desenvolve esse ponto, então a leitura a seguir é nossa, não dela. Ela nos parece a mais honesta diante desse contraste: a classe social parece explicar mais sobre a preferência desses jovens do que a geração deles. Quem tem rede de proteção consegue considerar o risco do trabalho autônomo. Quem não tem, quer o vínculo que garante o piso.

Ou seja: mesmo num levantamento desenhado para falar de uma geração, a variação relevante apareceu dentro dela, não entre ela e as outras.

Isso é exatamente o que a Rock Ensina encontrou por um caminho completamente diferente.

O que 22 mil laudos comportamentais mostram

A Rock Ensina mantém a maior base brasileira de laudos comportamentais aplicados ao trabalho. São 22.000 laudos, recalculados um a um pela fórmula oficial do Teste das Cores. O estudo completo está publicado, com método aberto e limites declarados.

Cruzando perfil comportamental com geração de nascimento, em 19.434 laudos que trazem essa informação, a distribuição das cores predominantes fica assim:

  • Baby-Boomer: azul 30,4%, verde 39,1%, amarelo 12,2%, vermelho 18,2%
  • Geração X: azul 29,0%, verde 41,8%, amarelo 14,3%, vermelho 15,0%
  • Geração Y: azul 30,6%, verde 40,3%, amarelo 17,0%, vermelho 12,1%
  • Geração Z: azul 31,7%, verde 35,5%, amarelo 17,3%, vermelho 15,5%

As linhas são praticamente paralelas. A pontuação média de azul varia de 27,7 a 28,1 entre a geração mais velha e a mais nova. É variação de casa decimal.

Agora compare com o recorte de gênero, na mesma base, em 13.813 laudos: o verde é a cor predominante em 42,4% das mulheres e em 32,5% dos homens. São quase dez pontos de diferença. Na mesma medida, a maior distância entre duas gerações é de 6,3 pontos, também no verde, entre a Geração X e a Geração Z.

Duas bases independentes, construídas com métodos que não têm nada a ver um com o outro, apontam para a mesma direção: a variação dentro da geração é maior que a variação entre gerações.

O levantamento do Estadão mostra isso na classe social. Nós vemos no gênero. Nenhum dos dois vê na data de nascimento.

Duas camadas que o RH insiste em misturar

Aqui está o ponto central deste texto, e ele é a razão de tanta política de gestão dar errado.

Existem duas coisas diferentes sendo medidas quando se fala de Geração Z, e elas têm naturezas opostas.

Camada 1: a preferência

É o que a pessoa quer do trabalho. CLT ou autônomo, presencial ou remoto, salário ou flexibilidade, ficar ou sair. É o que a pesquisa Ipsos mediu, e mediu bem.

Essa camada é instável por natureza. Ela responde ao momento econômico, ao custo de vida, à oferta de vagas, à idade, à existência ou não de filhos, ao medo da inteligência artificial em cargos de entrada. A mesma pessoa responde diferente aos 22 e aos 32 anos. E, como o recorte de classe social mostrou, responde diferente conforme a condição em que está.

Camada 2: o comportamento

É como a pessoa decide, se comunica, lida com prazo, com conflito e com risco. Se prefere analisar antes ou testar antes. Se precisa de contexto para topar uma mudança ou se entra primeiro e entende depois.

Essa camada é estável. É o que o Teste das Cores mede, e é o que os 22 mil laudos mostram não se mover entre gerações.

O erro caro acontece quando uma pesquisa da primeira camada é lida como se fosse da segunda. A frase circula mais ou menos assim: “a Geração Z quer flexibilidade, logo a Geração Z é indisciplinada”. A primeira metade é um dado. A segunda é um salto sem ponte.

Querer flexibilidade é preferência. Ser indisciplinado é comportamento. Uma coisa não implica a outra, e os dados dizem que não implicam mesmo: a distribuição de perfis na Geração Z é praticamente a mesma dos Baby-Boomers.

Por que o estereótipo sobrevive mesmo desmentido

Se o dado é tão claro, por que a caricatura continua de pé? Por três razões práticas, que vale reconhecer.

A primeira é de atribuição. Quando um jovem se comporta de um jeito que incomoda, o gestor atribui à geração. Quando alguém de 50 anos faz a mesma coisa, ele atribui à pessoa. O mesmo comportamento recebe explicações diferentes conforme a idade de quem o pratica, e só uma dessas explicações vira tese de palestra.

A segunda é de posição. Jovens ocupam, majoritariamente, cargos de entrada. Cargo de entrada tem menos autonomia, menos contexto, menos vínculo e menos motivo para ficar. Muito do que se atribui à geração é, na verdade, efeito do degrau em que ela está. Um profissional de 45 anos num cargo júnior, sem perspectiva e sem informação, costuma se comportar de forma bem parecida.

A terceira é de conveniência. É mais confortável para a empresa concluir que a nova geração não aguenta o tranco do que concluir que o trabalho que ela oferece não sustenta ninguém. A explicação geracional é a que menos exige mudança de quem explica.

Desenvolvemos essa discussão em conflito de gerações no trabalho, e o recorte específico de expectativa está em Geração Z no trabalho.

O que muda na prática

A conclusão não é que geração não importa. É que ela importa em um lugar e não importa em outro. Separar os dois resolve boa parte do problema.

Onde o recorte geracional ajuda: desenho de benefícios, formato de trabalho, canal e tom de comunicação interna, política de carreira e de aprendizado. São escolhas ligadas a contexto de vida, e contexto de vida tem, sim, relação com a idade. É aqui que a pesquisa do Estadão é útil de verdade, e é aqui que a gestão multigeracional e a mentoria reversa entregam resultado.

Onde o recorte geracional atrapalha: expectativa de comportamento, avaliação de potencial, escolha de quem vai liderar, composição de equipe, leitura de conflito. Nessas decisões, tratar alguém pelo ano de nascimento é substituir informação por palpite. E é exatamente aí que o custo aparece, como descrevemos em gestão de pessoas no feeling.

Uma segunda implicação, menos óbvia. Se a variação relevante está dentro da geração, então a pergunta útil nunca é “como lidar com a Geração Z”. É “como lidar com estas doze pessoas”, que por acaso têm entre 22 e 28 anos e não se parecem entre si. A resposta agregada não serve para o caso individual, por melhor que seja a pesquisa que a gerou.

E uma terceira, sobre diversidade. Se equipes tendem a se formar por semelhança, e se o recorte geracional é o mais visível de todos, o risco é montar um time jovem achando que se diversificou, quando na prática se reuniu um grupo com o mesmo perfil comportamental e o mesmo ponto cego. Idade não é diversidade. É o assunto de diversidade geracional.

O resumo em uma frase

A pesquisa Ipsos e Estadão indica que a Geração Z quer ser bem paga, está dividida quanto ao vínculo e responde à classe social mais do que se costuma supor. Os 22 mil laudos da Rock Ensina mostram que, no comportamento, ela não se diferencia de ninguém.

Juntando as duas coisas: a Geração Z nunca foi o problema, e também nunca foi uma categoria útil de gestão. O que existe são pessoas diferentes entre si, em contextos de vida diferentes, sendo tratadas por uma média que não descreve nenhuma delas.

Nota de fonte

Os resultados atribuídos à pesquisa Ipsos foram divulgados pelo Estadão em setembro de 2026, em série de reportagens sobre a Geração Z brasileira. O jornal informa que o levantamento ouviu jovens de 16 a 29 anos, mas não divulgou nas matérias abertas o número de entrevistados, o período de campo nem a abrangência geográfica. Optamos por descrever a direção dos resultados em vez de reproduzir percentuais. As leituras e os cruzamentos propostos neste texto são da Rock Ensina e não devem ser atribuídos ao jornal nem ao instituto.

Os dados da base própria vêm do estudo comportamental da Rock Ensina. A geração de nascimento está preenchida em 19.434 dos laudos e o gênero em 13.813. A menor das faixas geracionais é a dos Baby-Boomers, com 335 laudos, o que recomenda cautela com as comparações que a envolvem. Método, recortes e limites completos estão no estudo completo.

Análise de Prof. Me. Roberto Sachs, mestre em Gestão de Pessoas com foco em conflito de gerações e criador do Método das Cores, a partir da base de laudos da Rock Ensina.

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Perguntas frequentes

Perguntas que essa discussão costuma deixar em aberto.

O que a pesquisa permite afirmar, o que não permite e como isso muda a gestão.
Que o estereótipo não se sustenta. Entre jovens de 16 a 29 anos, a maior parcela considera o trabalho com carteira assinada e o trabalho autônomo igualmente vantajosos, ou seja, não há rejeição em bloco à CLT. E a remuneração apareceu como o fator mais citado para sair ou permanecer num emprego, o que contraria a ideia de que dinheiro não importa para essa geração.
Não de forma relevante. Na base de mais de 22 mil laudos comportamentais da Rock Ensina, a distribuição das cores predominantes entre Baby-Boomers, Geração X, Y e Z é praticamente a mesma, e as médias de pontuação variam na casa decimal. O que muda entre gerações é o contexto e a expectativa em relação ao trabalho, não o jeito de ser.
Preferência é o que a pessoa quer do trabalho em determinado momento, e muda com a economia, a idade e a fase de vida. Perfil comportamental é como a pessoa decide, se comunica e lida com risco, e é estável ao longo do tempo. Pesquisas de opinião medem a primeira camada. Instrumentos como o Teste das Cores medem a segunda. Confundir as duas leva a políticas de gestão erradas.
Faz sentido para comunicação, benefícios e formato de trabalho, que são escolhas ligadas ao contexto de vida. Não faz sentido para expectativa de comportamento, avaliação de potencial ou composição de equipe. Nessas decisões, o ano de nascimento explica muito pouco e o perfil individual explica muito.
Prof. Me. Roberto Sachs
Sobre o autor
Prof. Me. Roberto Sachs

Mestre em Gestão de Pessoas com foco em Conflito de Gerações. Colunista do UOL, formado pela ESPM, com extensão pela UCLA e pós-graduação em Marketing Estratégico. Criador do Teste das Cores e do Método das Cores, com mais de 22.000 aplicações, acumula mais de 30.000 horas-aula e mais de 2.500 mentorias dedicadas a liderança, vendas, soft skills e cultura organizacional, e dedica parte da sua pesquisa à convivência entre gerações no trabalho. À frente da Rock Ensina, aplica esse conhecimento em empresas de todo o Brasil, unindo a leitura comportamental do Teste das Cores à dimensão geracional para ajudar líderes e times a transformar diferença em colaboração.

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