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Nirvana e os negócios: o faixa a faixa de Nevermind que você nunca viu

Capa do álbum Nevermind do Nirvana; conheça a estratégia de negócios de Kurt Cobain
Diego Assis Prof. Roberto Sachs
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Há exatos 30 anos, em 24 de setembro de 1991, a banda Nirvana colocava nas lojas “Nevermind”, disco que mudou para sempre a história da indústria musical.

Segundo álbum do grupo fundado por Kurt Cobain, “Nevermind” vendeu mais de 30 milhões de cópias, atingiu o número 1 na lista da Billboard logo no início de 1992 e foi classificado pela revista Rolling Stone como o sexto melhor álbum de todos os tempos em 2020.

Mas a importância de “Nevermind” vai além da música. O sucesso do disco mundo afora modificou comportamentos, renovou o fôlego da indústria de entretenimento e incluiu no radar das empresas um novo público consumidor que até então era negligenciado pelos tomadores de decisão, a Geração X.

O impacto de “Nevermind” para a Rock Ensina também é incalculável. Foi graças ao Nirvana, e à sua filosofia do-it-yourself (faça você mesmo), que o Prof. Roberto Sachs formou sua primeira banda de rock e deu os primeiros passos no empreendedorismo.

Muito já foi falado e escrito sobre o álbum e sobre a breve carreira de Kurt Cobain, que cometeu suicídio menos de três anos após o lançamento de “Nevermind”. Mas, no aniversário de 30 anos desse marco da cultura pop, gostaríamos de propor uma leitura diferente sobre as faixas e a construção desse fenômeno.

Então dê o play na playlist abaixo e confira a seguir nossa livre interpretação das músicas de “Nevermind” sob o ponto de vista do Nirvana e os negócios.

“Smells Like Teen Spirit”: O produto certo, na hora certa, para o público certo

Não é exagero dizer que “Nevermind” transformou o Nirvana na banda mais comentada daquele início da década de 1990. Eles estavam nas capas de revistas, nos videoclipes da MTV, nos line-ups de festivais, como o brasileiro Hollywood Rock, nas camisetas e nas paredes dos quartos dos adolescentes.

O crítico do jornal Los Angeles Times classificou o impacto da banda como “o despertar da voz de uma nova geração”. E não era só uma frase de efeito ou golpe de marketing.

De fato, quando “Nevermind” chegou, “cheirando à espírito adolescente”, como diz o título da primeira faixa do álbum, os jovens de 15 a 25 anos finalmente encontraram uma banda para chamar de sua.

Até então, as paradas eram dominadas por artistas pop com décadas de carreira como Michael Jackson, por medalhões dos anos 70 como Aerosmith, ou bandas de metal já absorvidas pela máquina das gravadoras como Metallica ou Guns N Roses.

Para onde se olhasse, a cultura pop seguia o gosto dos Baby Boomers, os filhos do pós-guerra, nascidos entre 1946 e 1964. Nomes como Beatles, Bob Dylan e Rolling Stones eram ainda a única referência de juventude e rebeldia. O presidente norte-americano era Bill Clinton, os chefões de gravadora eram todos quarentões ou cinquentões.

Com letras, uma sonoridade e um estilo de vida que falava diretamente aos jovens que não se identificavam mais com seus pais e continuavam sendo ignorados pelo mainstream da indústria do entretenimento, “Nevermind” chegou provocando disrupção e botando tudo isso abaixo.

Foi a trilha sonora da Geração X, que na época chegou a ser chamada de “Baby Busters” em oposição direta aos boomers. “Buster”, em inglês, quer dizer destruidor.

“Come As You Are”: A autenticidade como receita do sucesso

À primeira vista, para os padrões da música pop de então, era no mínimo improvável que uma banda como o Nirvana atingisse um público tão grande e tão rápido.

O som do Nirvana, que acabou sendo rotulado de “grunge” pela imprensa musical da época, era uma mistura de punk e metal pesado com elementos de pop radiofônico. As guitarras alternavam momentos de calmaria e introspecção com refrãos distorcidos e explosivos. Cobain não era exatamente um cantor afinado e seus versos ora doces, ora agressivos, eram carregados de ironia e provocações ao establishment.

Em outras palavras, se você não era um jovem adolescente, um “teen spirit”, naquela época, é provável que tenha tapado os ouvidos para o som que vinha dos auto-falantes. O que certamente era mais difícil era fechar os olhos para a transformação que o Nirvana provocava por onde passava.

Num tempo em que a maior parte das bandas de rock ainda preservava um visual anos 1980 de roupas de couro, cabelos compridos e tatuagens, Cobain surgiu com um visual mais despojado — os americanos chamavam de “slacker” –, de calças jeans rasgadas, camisetas surradas e as inconfundíveis camisas xadrez, que virariam uma marca registrada entre os fãs do “grunge”. Não raro tocava de pijamas ou se apresentava para entrevistas vestindo roupas femininas.

Para o pop de hoje isso pode parecer corriqueiro, mas naquela época era uma afronta direta a um showbusiness sexista, homofóbico e comandado por boomers que não entendia nada da cabeça e das contradições do que ele costumava chamar de “new generation”, a nova geração.

Cobain veio como ele era, e os fãs se reconheceram nessa imagem.

“Breed”: O efeito multiplicador do Nirvana na cena musical

Criado em 1989 em Aberdeen, interior do estado de Washington, o Nirvana não foi a primeira nem a última banda da época a juntar guitarras pesadas ao espírito punk. Bandas como Pixies, Sonic Youth, Beat Happening, Melvins e Mudhoney, estes últimos companheiros de selo do Nirvana na Sub Pop, já faziam isso antes.

Só em Seattle, metrópole mais próxima a Aberdeen e onde o Nirvana acabaria montando base poucos meses depois, outras bandas como Soundgarden, Alice in Chains e Pearl Jam surgiram na mesma época. “Ten”, álbum de estreia e de maior impacto até hoje do Pearl Jam, também foi lançado em 1991. Assim como “Blood Sugar Sex Magic”, sexto (!) álbum do Red Hot Chili Peppers, lançado exatamente no mesmo dia que “Nevermind”.

Mas o fato é que nenhuma dessas bandas ou discos conseguiu reunir em uma coisa só o que o Nirvana conseguiu com “Nevermind”: forma e conteúdo. “Nevermind” não era só um álbum com uma capa genial de um bebê mergulhando pelado atrás de uma nota de dólar — era também. Cobain não era só mais um frontman tentando desconstruir os clichês do rock dos anos 80. Ele era franzino, vulnerável e um pouco inconsequente como boa parte dos filhos dos boomers. Ele era a “voz de uma geração”.

Em seu livro de memórias “Scar Tissue”, Anthony Kiedis narra os primeiros encontros que teve com Cobain e como, mesmo com muito mais experiência de palco, o vocalista do Red Hot Chili Peppers sentia que o Nirvana era diferente. Na biografia, Kiedis chega a sugerir que foi o sucesso do Nirvana como banda de abertura que ajudou a levar público para os shows de “Blood Sugar” em 1991-1992, e não o contrário.

Fenômeno semelhante aconteceria com bandas veteranas como Sonic Youth, que carregavam o Nirvana para festivais onde tocavam, e até para as demais bandas e artistas de rock de Seattle que já estavam lá bem antes da chegada do bebê de “Nervermind”. Não foi Jimi Hendrix, nem o Heart, nem Soundgarden quem colocou Seattle no mapa da música. O pai da criança foi Kurt Cobain.

“Territorial Pissings”: As forças competitivas e a estratégia do Nirvana Ltda.

Você pode pensar que Kurt Cobain era um porra-louca, viciado em drogas e que nunca passou perto de um livro de Michael Porter. E provavelmente estará correto. O que talvez você não saiba é que por trás do mito existia um artista com visão clara de negócios, extremamente competitivo e que analisava cada aspecto da indústria em que atuava para traçar suas estratégias.

“Você não se torna os Beatles por acaso. E você não se torna o Nirvana por acaso”, relata Danny Goldberg, ex-empresário do Nirvana, no livro “Serving the Servants: Remembering Kurt Cobain”. “Ele mal conseguia andar pela sala, mas suas decisões eram sempre corretas e não importava a opinião de ninguém mais. Quando se trata do produto profissional do Nirvana, ele tomava todas as decisões de um lugar de extrema consciência.”

Mesmo que instintivamente, Cobain tinha consciência desde muito cedo do Nirvana como uma marca, desenhando ele próprio logos, capas de álbuns, camisetas e storyboards de videoclipes para garantir que os produtos do Nirvana atingissem com eficiência o público-alvo.

E mais: assim como pregava Porter em seu estudo sobre as forças competitivas de uma empresa, Cobain era um artista muito consciente do espaço que queria ocupar no mercado e do grau de diferenciação do seu produto em relação aos concorrentes. Ficaram famosas as brigas e declarações públicas dele contra o Pearl Jam ou o Guns ‘N Roses, de quem ele fazia questão de se distanciar alegando valores e sonoridades diferentes.

A imprensa musical bem que podia tentar colocar todo mundo no mesmo balaio, mas Cobain era um territorialista convicto e sabia que estava disputando público com bandas — ou marcas — que julgava inferiores às dele.

A capa da revista “Time” de 1993 com a foto de Eddie Vedder, do Pearl Jam, como a voz de uma geração de jovens, foi um golpe que ele nunca aceitou.

“Lounge Act”: Da fúria grunge ao cantor de churrascaria

O impacto cultural de um artista pode ser medido, entre outras coisas, pela quantidade de covers de suas canções que ele alcança. No caso do Nirvana, especialmente do álbum “Nevermind”, há dezenas de reinterpretações, dos mais diversos estilos, incluindo orquestra sinfônica, música eletrônica e até MPB.

Entre as as mais lembradas estão as versões de Patti Smith, Tori Amos e até Cassia Eller para o clássico “Smells Like Teen Spirit”, além das mais inusitadas como o cover de Paul Anka, para a mesma “Smells Like”, e de Caetano Veloso, com “Come As You Are”.

John Frusciante, guitarrista do Red Hot Chili Peppers, também gravou sua versão de “Lounge Act”, faixa um pouco menos conhecida do álbum “Nevermind” que, numa tradução livre para o português, seria algo como “cantor de churrascaria”.

Vale lembrar que o próprio Cobain era um adepto dos covers. De início para ajudar a complementar o setlist de (poucas) músicas que o Nirvana tinha no começo da carreira, mas em partes também como homenagem aos artistas que ajudaram a moldar o gosto musical e as próprias composições de Cobain.

No álbum acústico “MTV Unplugged in New York”, o mais próximo que Cobain talvez tenha chegado de um “cantor de churrascaria”, há covers de David Bowie, Meat Puppets, Vaselines e do pioneiro do blues Leadbelly.

“Drain You”: O paradoxo do sucesso e o esgotamento do ídolo

Nos diários publicados após a sua morte, Kurt Cobain não escondia que seu objetivo era alcançar o sucesso. Ele queria gravar discos, fazer shows e viver bem da música que compunha, em vez de continuar limpando banheiros e janelas de hotéis para ganhar no máximo 5 dólares por hora.

Pois, em 1991, o sucesso chegou. Com ele o dinheiro, a fama e as intermináveis horas de entrevistas e turnês que acabaram drenando o seu entusiasmo original. Como um produto que esgota rápido demais no prateleira, Cobain não estava preparado psicológica nem fisicamente para aguentar a pressão e a atenção sobre si mesmo.

Junto a isso, lidava com uma doença crônica no estômago, que provocava dores agudas e muitas vezes o impedia de subir ao palco. O abuso de heroína e remédios à base de morfina, insistia, era consequência e não causa das dores.

O suicídio do cantor em 5 de abril de 1994 abalou os fãs, o mundo artístico e a indústria da música imediatamente, mas para alguns não foi exatamente uma surpresa. Por mais que ele negasse publicamente esse desejo, menções esporádicas a suicídio apareciam aqui e ali em suas letras e clipes, como na sugestiva “I Hate Myself and I Want to Die”.

Em sua carta de despedida, Cobain admitiu que não sentia mais “o entusiasmo de ouvir ou criar música” há anos, e que por isso se sentia “culpado demais”. Mesmo os shows e a energia do público que tanto o motivaram no início, não o afetavam mais, escreveu. “Eu não tenho mais a paixão”. E conclui citando um verso do velho roqueiro Neil Young: “It’s better to burn out than to fade away”. Ou: é melhor queimar de uma vez do que ir se apagando.

A vida de Cobain se encerrou ali, mas a voz daquela geração segue acessível 30 anos depois graças a um trabalho como o de “Nevermind”. E é missão das gerações seguintes, Millennials e Geração Z, abrirem espaço para as suas próprias vozes.

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